Reef Check

PROGRAMA DE MONITORAMENTO DOS RECIFES BRASILEIROS

        Recifes de corais são encontrados em mais de 100 países e territórios através dos trópicos. A beleza dos recifes é lendária, e a importância indiscutível, por se tratar do segundo ecossistema com mais biodiversidade no mundo (Hugdson,1999). A saúde dos recifes é um assunto critico para centenas de milhões de pessoas nos trópicos que dependem dos recifes para seu sustento e cultura. No total se estima que 500 milhões de pessoas vivendo em países em desenvolvimento têm algum tipo de dependência de recifes de coral (Wilkinson,2002).

         Estimativas indicam que a nível mundial, os recifes de coral contribuem com quase 375 bilhões de dólares em bens e serviços através de atividades como pesca, turismo e proteção costeira (Wilkinson,2002). No entanto, os recifes de coral em todo mundo estão seriamente ameaçados. Estima-se que 27% dos recifes de coral do mundo já foram degradados irreversivelmente. No ritmo atual, previsões indicam que uma perda semelhante ocorrerá nos próximos 30 anos (César etal., 2003)

         A preocupação com o estado de conservação dos recifes não é recente. Há uma década, cientistas se reuniram durante o Colloquium Sobre Aspectos Globais dos Recifes de Corais na Universidade de Miami, quando se constatou que impactos antropogênicos sobre os recifes de corais estavam atingindo níveis alarmantes (Ginsburg, 1994). Ficou claro também que não havia ainda informações suficientes para formar um retrato da situação dos recifes mundiais. Essa discussão foi um ponto de virada para muitos cientistas e levou, em 1997, à implantação da Rede Global de Monitoramento de Recifes de Coral (GCRMN). Desde 1998, a cada dois anos, têm sido publicados, então, relatórios globais, reunindo resultados de vários países do mundo organizados em núcleos regionais (Wilkinson, 1998,2000 2002).

O REEF CHECK

         O Reef Check é um programa global de monitoramento de recifes de coral, ligado ao Global Coral Reef Monitoring Network (GCRMN), que vem realizando monitoramentos desde 1997, em 150 paises (Hogdson e Liebeler, 2002). O GRCMN e o Reef Check estão ligados em uma parceria estratégica com o programa ReefBase à base de dados global dos recifes de coral, representando o instrumento de divulgação e compartilhamento dos dados de pesquisa e de monitoramento gerados. Contribuições de outros projetos como CORDIO, CARICOMP, AGRRA e Reef at Risk também representam um importante componente (Wilkinson, 2002).

         O Reef Check é voltado para voluntários, com o objetivo de monitorar a saúde dos corais e de relacionar os resultados a eventos globais (como mudanças climáticas), ou locais (impactos antrópicos como pesca, poluição e turismo) e de propor soluções para o manejo. Em geral, se recomenda que os métodos do Reef Check, por serem mais básicos e voltados para voluntários, sejam introduzidos inicialmente, e que, depois, se incorporem também os métodos mais detalhados que são parte do GRCMN (Wilkinson, 2000). Além disso, o Reef Check por ser um programa voltado para comunidade e de participação voluntária; pode ser potencialmente estabelecido em uma rede de pontos muito maior e envolver a participação de um grande numero de pessoas, abrindo caminho para seleção e a instalação de pontos de monitoramento detalhados, em ambientes de especial relevância e/ou representatividade. Durante todo o ano de 2002 e em parte do de 2003, foram realizados levantamentos com metodologia Reef Check em 50 pontos de mergulho distribuídos em 9 localidades diferentes da costa brasileira.

         A Pró-mar adotou o método reef check como ferramenta no desenvolvimento do projeto Maré Global, colaborando assim com o diagnóstico ambiental e o envolvimento comunitário. Os ecossistemas costeiros do nordeste, incluindo os recifes de corais da Ilha de Itaparica - maior construção recifal da Baía de Todos os Santos (BTS), estão entre os mais intensamente utilizados. A economia dos municípios costeiros se baseia na exploração destes recursos de forma direta, através da pesca e extrativismo ou da renda obtida sazonalmente durante a época turística. Atualmente, a população dos municípios costeiros aumenta até cinco vezes durante o verão, com a chegada dos veranistas procedentes das capitais, cidades do interior ou outros estados. Alguns levantamentos realizados na região da Ilha de Itaparica mostraram que esse grande aumento da população durante a estação do sol, aparece como um dos principais fatores de degradação pontual dos recifes e ecossistemas adjacentes.

         A continuidade de atividades tradicionais, como a pesca e o desenvolvimento sustentável do turismo, depende da conservação dos ecossistemas costeiros através de medidas racionais de uso.
A falta de informação sobre a situação dos recifes mundiais e a constatação dos impactos estavam atingindo níveis alarmantes, levou cientistas, governos e ong’s a criarem em 1997 uma Rede Mundial de Monitoramento de Corais, a Global Coral Monitoring Network (GCRMN) para o monitoramento e saúde dos recifes de coral de todo o mundo.

         A metodologia Reef Check foi desenvolvida no início de 1996 com o objetivo de ser o Programa da Rede Global de Monitoramento de Recifes de Coral (Global Coral Reef Monitoring Network) das Nações Unidas, baseado na participação comunitária e voluntária. Atualmente, o Reef Check é o maior programa internacional de monitoramento de recifes de coral envolvendo mergulhadores recreacionais e cientistas marinhos.

        O Reef Check atua junto aos membros das comunidades locais no monitoramento dos recifes de coral, fornecendo informações necessárias para o uso sustentável do ecossistema recifal. Tem como objetivos: informar o público sobre os recifes de coral, suas características, importância e impactos negativos sofridos; criar uma rede mundial de voluntariado, à qual realizará regularmente o monitoramento dos recifes de coral; investigar cientificamente os processos ecossistêmicos destes ambientes; facilitar a colaboração mútua entre a academia, ong’s, Estado e o setor privado; e estimular uma mudança no comportamento das pessoas, conscientizando-as sobre os impactos sofridos nos ambientes recifais, buscando diminuir estes impactos e possibilitar a recuperação dos recifes de coral.

         O método empregado pelo Reef Check é voltado para um diagnóstico da saúde recifal a partir de estimativas da abundância de organismos recifais selecionados. A escolha destes indicadores baseia-se na sua importância ecológica e econômica, na sua sensibilidade a impactos humanos e, também, na facilidade de identificação. A seleção dos locais deve sempre partir dos “melhores” sítios disponíveis, uma vez que a meta global é determinar a extensão dos impactos humanos sobre os recifes de coral.

REEF CHECK ITAPARICA

        Em 2004, a metodologia Reef Check chegou à ilha de Itaparica como resultado de um intercâmbio promovido pela Fundação AVINA (representação Costeiro Marinho). Neste ano estiveram na ilha o Dr. Mauro Maída e a Drª Beatrice Padovani. Para esta visita, a Pró-Mar organizou um curso para pescadores e mergulhadores da comunidade, assim como o primeiro seminário Reef Check, com apoio da Rede Bahia, afiliada da Rede Globo no estado, Prefeitura Municipal de Vera Cruz e 5ª Cia. Independente de Polícia Militar. Contou também com a participação expressiva da comunidade, líderes de organizações do terceiro setor,  e estudantes de biologia.

       O programa Reef Check despertou um interesse muito grande dos pescadores e comunidade, mostrando-se um bom instrumento de mobilização comunitária. Conservar os recifes da ilha de Itaparica é também um resgate da própria identidade local - na língua dos Tupinambás, Itaparica significa cerca de pedra -, uma referência à construção recifal que bordeja toda a costa leste da nossa ilha.

         No ano de 2005 a Pró-Mar passou por um período de grandes dificuldades. Os monitoramentos aconteceram, mas ainda de forma bastante amadora. As dificuldades operacionais restringiram as atividades, mas, mesmo assim, não perdemos de vista a necessidade de consolidar e sistematizar esta atividade de pesquisa e educação. Percebemos também o apelo positivo que esta metodologia favorece para agregar parcerias; foi já no último dia deste mesmo ano que conseguimos sensibilizar uma empresa multinacional para apoiar esta atividade. Nascia neste momento a parceria da Pró-Mar com o Club Méd da ilha de Itaparica.

       Em 2006, chega a ilha o pernambucano Danilo Max para fortalecer e dinamizar as atividades de monitoramento. Na “bagagem”, a experiência de ter trabalhado cinco anos no projeto Recifes Costeiros com a Drª Beatrice Padovani e o Dr. Mauro Maída. Sua chegada contribuiu para melhorar as atividades de monitoramento e para a implantação da nossa base no Club Méd. Neste mesmo ano, conseguimos fechar outra importante parceria com a GDK, que investiu em equipamentos de última geração e recursos financeiros, criando condições para a Pró-Mar desenvolver os trabalhos de pesquisa e educação ambiental com excelência. No ano seguinte, planejamos expandir a capacitação para a comunidade, monitorar outros pontos dos recifes de Coral na Baía de Todos os Santos, ampliando a nossa capacidade para mobilizar e educar moradores e freqüentadores para a importância da sustentabilidade do ecossistema recifal.

         O apoio e incentivo da Drª Beatrice Padovani foi e continua sendo de fundamental importância para a consolidação, aprimoramento e desenvolvimento do método Reef Check na ilha de Itaparica e no Brasil. Nosso sincero agradecimento.

Referências Bibliográficas

HOGDSON, G. 1999.  Coral reef Monitoring and Management Using Reef Check.  Integrated Coastal Zone Management. 2: 169-177.

MAIDA, M. & B. P. FERREIRA.  1997.  Coral Reefs of Brazil: Overview and field guide.  Proc. 8th Int Coral Reef Sym 1:263-274 (in english).